Crente de esquentar banco
Desde que sou gente eu escuto gente dizendo que não podemos ser crente de banco, aquela pessoa que vai pra igreja domingo, toma o cafezinho, conversa com a pastora, abraça uma criança e vai embora, passa a semana inteira sem pensa na igreja. Faz sua leitura bíblica diaria de boas, ora, as vezes pula alguns dias. Não vai se preocupar se precisa limpar a igreja, se precisa fazer o cafezinho, se precisa preparar o sermão, se precisa dar aula ou um encontro. O cristão de esquentar banco.
Realmente ser sempre assim é um prejuízo para a comunidade religiosa e para você mesmo. Afinal a igreja não é um passeio dominical, ou um lazer. A igreja é para SER, para estar e fazer parte daquilo.
Pois bem, quando estava no auge desse pensamento eu estava literalmente criando slides para o culto, cuidando da transmissão desses slides, enquanto regia a igreja nos cantos, tinha que eventualmente pregar ou conduzir o culto, cantar na bandinha, ajudar em questões dos almoços semanais, quando não acontecia tudo junto. Além disso eu era o estudioso, me aprofundava nos conhecimentos de teologia, liturgia, musica, canto, regência, tecnologia, e tantas outras coisas. Uma vez eu quase criei um studio de gravação na igreja para captar audio e transmitir no programa de rádio que a igreja também cuidava.
Nesse meio tempo eu ainda era o defensor da fé, cuidando pela confessionalidade, doutrina e normas da igreja. Sim eu brigava por questões da fé, defendia as doutrinas e os pensamentos que fizeram a igreja ser o que ela é hoje. Não que hoje eu não faça isso, mas eu era basicamente o martelo que pregou as 95 teses.
Quando eu me tornei luterano eu estava saindo de um momento tão turbulento da minha vida, cheio de desapontamentos com todas as coisas que eu fiz e que jamais deram um fruto que fosse realmente palpável e transformador. Nas palavras que eu uso hoje: eu não era um pequeno Cristo para ninguém.
Ao perceber que tudo o que eu fazia era tão secundário, que não impactava de fato as pessoas, que não era possível eu contar algo que durou mais que um final de semana eu adoeci horrivelmente.
Então veio esse momento em que eu me tornei o tão odiado crente de esquentar banco. Eu fui para a igreja, sentei no banco, ouvi os sinos, cantei, li a bíblia, orei, confessei os pecados, louvei, ouvi a prédica, confessei a fé, tomei a Ceia. Parece simples, mas era a primeira vez em anos que eu participava de um culto, mesmo estando presente todos os domingos por anos na igreja. Eu tinha me esquecido de como era cultuar, não só isso, esqueci de ser cristão.
Uma vez eu disse: "eu já estudei e produzi muita teologia na minha curta vida, mas hoje eu parei e estou tentando viver essa teologia, essa fé". Nessa jornada eu aprendi algumas coisas tão profundas que deixaram marcas no meu coração que nunca vão se apagar.
Eu julgava mesmo o próximo, por ser crente desse ou daquele jeito, por não colocar a risca a confessionalidade em que estava, por não orar assim, por não fazer isso, ou aquilo. Por mais que eu não externasse isso tudo, ainda assim era fato que eu julgava.
"Como essa pessoa é de uma igreja histórica e acredita em revelações?", "Como essa pessoa não entende a trindade e se diz cristã?", "Quem é essa pessoa que não vive essa doutrina e ainda pode tomar a ceia?"
Sinceramente eu não sei como eu me aguentava.
Hoje eu posso olhar para esse passado e dialogar com ele. Talvez a primeira coisa que eu entendi é que, por mais que eu ame a liturgia, a doutrina e história da Igreja, por mais coisas que eu saiba, eu sou protestante, então eu tenho que tomar cuidado para não me achar o Patriarca de Antioquia, ou o Bispo de Roma. E mesmo que eu fosse, minhas opiniões valem tanto quanto a da dona Florentina que vai na missa quando lembra que é domingo. Não é meu direito achar isso ou aquilo das pessoas, nem mesmo se elas vão para o céu, se merecem isso ou aquilo. Posso sim aplicar isso a mim.
Então você ainda me diria que eu estou sendo individualista e deixando que a alma imortal do meu irmão se perca enquanto eu cuido da minha vida.
Mas a questão é que a todas as concepções, pensamentos e credos que assumimos como cristãos protestantes não são coisas para guardar no coração, são para vivermos e mostrarmos na nossa vida, e essa foi a dura lição que eu aprendi: cuidar da minha vida e viver a minha vida cristã talvez seja (e é na minha desumilde opinião) a maior exortação, a maior prédica, o maior evangelismo, a maior expressão de Cristo que eu possa produzir.
Sim eu estou falando de cuidar do próximo, procurar uma vida reta, lutar por justiça e amar o próximo, mas também estou falando de ir para a igreja e calar a minha boca, ouvir a prédica, olhar e prestar atenção a vida da minha irmã e ver que, mesmo vivendo, fazendo e acreditando em coisas que eu não concordo, ela ainda experimenta Deus na vida dela, dá pra ver e sentir que Cristo morto e ressuscitado está nessa mulher.
Que o fato dela ser assim, falar coisas das quais discordo na prédica, as vezes ofendendo o mais caro da minha fé, ainda assim é voz de Deus, pois Deus fala até pelas pedras, quem dirá por um descrente ou herege. Que isso não faz as pessoas se perderem como eu imaginava, porque de todas as coisas que discordamos o mais importante é o que nos une: a fé em Cristo.
Eu acredito que existem heresias pesadas em diversas pessoas e mesmo assim acredito que elas vão para o céu e estarão comigo, pois elas acreditam na obra salvadora de Jesus, que cobre uma multidão de defeitos. Talvez entender que alguma coisa do que eu acredito esteja beeeem errada e Jesus vai rir da minha cara quando eu chegar no céu, mas o principal, o cerne desse rolê chamado cristianismo é ter FÉ em JESUS, receber dele a GRAÇA, sem mérito algum, coisas que estão descritas nas ESCRITURAS, não importa como você interprete.
Hoje eu não estudei tudo o que acho ser preciso, não fui reconhecido como uma liderança religiosa, sou um carinha no meio do rebanho de ovelhas, tenho minha importância e faço valer meus direitos, as vezes posso puxar a orelha do pregador depois do culto em particular, mas mesmo assim me pergunto e me ofendo várias vezes me questionando: "quem sou eu na fila do pão?"
Não me desmerecendo, mas olhando para a minha soberba que muitas vezes é muito grande.
Não estou dizendo para abandonarmos as porteiras, largar mão de tudo e deixar que o gado corra solto, não, estou dizendo que nós somos gananciosos e na nossa ganância invadimos uma tarefa que não é nossa, é exclusiva do Espírito Santo, o Vento que move, ajunta, espalha e mistura o povo dEle.
"O vento sopra onde quer, você escuta o seu som, mas não sabe de onde vem, nem para onde vai; assim ocorre com todos os nascidos do Espírito."
- Jesus
Um dia foi importante defender fervorosamente a fé, queimar a bula papal, discursar inflamado pela palavra de Deus, tanto quanto hoje é importante viver a fé e mostrar ao mundo Jesus com menos palavras.
Naquele tempo demonstrar a fé calado não servia muito, assim como agora, não serve muito gritar e queimar os hereges.
Sei lá, na vibe de São Francisco...
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| Olha ele com o viadinho. Inclusivo ele. |
Eu sou parte da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, essa igreja permite que diversas formas de pensamento se organizem dentro de si, muitas vezes diretamente conflitantes, mas continuem sendo IECLB.
Se eu mostrasse para um brasileiro comum os pensamentos que eu já me deparei na minha própria igreja, ele diria que são pessoas de diferentes igrejas, mas na realidade todas são luteranas, acreditam basicamente na mesma coisa, mas colocam em sua realidade e em suas vidas de formas diferentes, e a minha igreja reconhece que isso é normal e possível. Existem brigas? Sempre, coisas pitorescas, mas isso é a prova de que as pessoas se relacionam, e sem isso, seria impossível habitar essa mesma igreja luterana. Hoje eu acredito nessa pluralidade na Igreja.
Faço votos para que eu continue assim, pois, quando eu era evangelical tinha uma coisa que falavam permanentemente e me cobravam permanentemente: evangelizar. Era chato e extremamente frustante, pois era incutido em nós uma ideia de evangelismo que é função do Vento, e lógico que eu nunca consegui.
Mas quando finalmente eu abandonei essa sina, decidi ser cristão, eu tive a imensa honra de ver alguém se tornar cristão por coisas que, não foi eu quem fiz, mas que o Vento fez através de mim. Eu não tentei convencer as pessoas, eu só fui pra igreja e vivi. É emocionante abrir mão de si e ser consumido por Deus, a gente sente que o fogo do Espírito queima no coração.





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