Meus antepassados são deuses, mas eu sou monoteísta, como conciliar?

Orixás no Dique Tororó em Salvador - BA
 Apesar da indecisão da sociedade em dizer a qual etnia eu pertenço, existem coisas factuais das quais não posso me esquivar: meus antepassados, em grande maioria, são pessoas negras. Eu fui criado por pessoas negras, com um sistema de regras, costumes e cultura de pessoas negras. Então a certo modo eu sou uma pessoa negra. Ainda que, a depender da escala de cores das pessoas ao meu redor, minha cor de pele não seja unânime.

E isso veio a tona fortemente na minha vida quando eu me percebi luterano, afinal aqui no Brasil é uma igreja profundamente ligada à imigração alemã, tornando o rosto luterano brasileiro, ainda hoje quase 200 anos após a fundação da primeira comunidade luterana em terras brasileiras, majoritariamente um rosto branco.

Não é de se admirar que eu tenha me estranhado em diversos momentos na comunidade, ou sentido a falta de gente preta ao meu redor.

Fato é que eu vim de uma comunidade religiosa que carregava uma tradição negra no cristianismo. E isso me fez refletir sobre raças, etnias e essa diversidade no cenário religioso.

Durante esse período da Semana Santa eu tive a casualidade de ver um vídeo curto de uma pessoa lembrando pessoas negras de que as tradições de comidas negras nesta época são traços da resistência dos nossos antepassados, frente a massacrante escravidão que estendia seus dedos inclusive na fé e nas refeições. E que deveríamos agradecer aos Orixás pela nossa cultura preservada e a resiliência de chegarmos até aqui. Afinal não foi Jesus, o Deus branco (palavras da pessoa), que lutou pelos meus ancestrais.

Não vou entrar no mérito de qual divindade lutou pelos meus antepassados, ou qual que luta por mim hoje. Acho isso uma desserviço religioso.


Claro que Jesus era palestino, ele não é branco, mas também é. Afinal olhar para Jesus é olhar ao nosso lado, se a pessoa ao nosso lado é branca, negra, asiática, isso não importa, é Jesus, o Deus que quis ser como nós.

Mas entendemos que o Europeu não teve esse pensamento quando enfiou goela abaixo o Jesus loiro de olhos azuis em todos os povos colonizados.

Pois bem, eu tive que concordar com a pessoa em parte. Afinal, agradecer aos Orixás é algo real para mim, mesmo que eles não representem um objeto de culto na minha vida.

Cabe olhar para as tradições religiosas africanas, especial e especificamente para a Iorubá, e entendermos que os Orixás, as divindades, esses deuses que personificam forças da natureza, não são apenas isso. Antes dessa compreensão vem a ideia de que foram pessoas, que andaram aqui na terra. Não como entendemos que Jesus andou, o homem-Deus. Orixás eram pessoas, célebres e fortes de suas épocas, que, pelas suas histórias e legados se tornam divinizados e cultuados. Já tive a graça de ver em documentários, brasileiros inclusive, pessoas visitando locais sagrados na Africa que são túmulos dos Orixás, afinal eles foram enterrados ali, alguns até tem artefatos originais que eles usavam.

A religião Iorubá é, essencialmente, um culto aos ancestrais.

Cada orixá foi uma pessoa, ou mais de uma pessoa com características que se aproximam e se aglomeram em uma entidade. Para os praticantes da religião ancestral, seja na África ou na diáspora aqui nas Américas, ainda é uma pessoa que vem para celebrar conosco nas festas.

Isso faz com que olhando em retrospecto é possível afirmar que carrego em mim o legado genético de algum orixá. Qual? Sabe Deus. Afinal pessoas negras escravizadas e seus descendentes tiveram um grande borrão na sua lembrança hereditária, que foi a escravidão.

E nesse borrão, na verdade nessa borracha que tentaram passar em nossas vidas, muitos perderam seus cultos originários. A muitos foi imposta uma nova fé. E hoje digo que muitos encontraram uma nova fé.

Foi terrível a violência espiritual que fizeram com meus antepassados, mas não posso corrigir isso gerando uma outra violência às pessoas que hoje são cristãs, que muito antes delas houve a perda da fé e hoje a fé natural delas é o cristianismo.

Mas cabe lembrar que ainda hoje essas pessoas, negros e descentes de pessoas escravizadas que são cristãs, devem conhecer, respeitar e honrar os Orixás. E quando eu digo isso o desespero bate na maioria dos cristãos. Afinal como podemos nós que cremos em um só Deus, conhecermos, respeitarmos e honrarmos outros deuses?

É importante vermos que nada disso é adorar, que é a grande questão do monoteísmo. Apesar de serem divindades, também são ancestrais, sem os quais nós não estaríamos aqui hoje, tanto quanto nossos pais, avós, bisavós, etc.

Fonte: catálogo da exposição – As cores do Sagrado – Caixa Cultural 2015/RJ

Da mesma forma que é possível eu conhecer, respeitar e honrar minha avó que faleceu, pela qual tenho muito amor e conhecimentos mais do que posso contabilizar, posso fazer o mesmo com os Orixás. Porque olhando em retrospecto é a mesma coisa, já que o conhecimento da vida que aprendi com a minha avó é o mesmo que os Orixás ensinaram aos seus filhos na antiguidade e passou por inúmeras gerações, pela minha avó e por mim.

Então pessoa do vídeo, eu não me sinto confortável em adorar os Orixás, isso é algo que se perdeu muito antes de mim, não está no meu ser reavivar isso. Mas eu concordo com você que é mais do que necessário eu agradecer pelos Orixás. Se tirarmos toda a mística e o sobrenatural das religiões eu ainda teria que dizer que foram os ensinamentos deles que mantiveram vivos meus antepassados na escravidão e me fizeram, em grande parte, ser quem eu sou.

E você pessoa negra evangélica, ou católica, leia ou ouça um pouco as histórias dos Orixás, você vai se surpreender que muito daqueles ensinamentos você já ouviu na sua família e na própria Bíblia, no próprio Jesus.

A ancestralidade é uma herança espiritual por si só. Acredito firmemente que é justamente essa a substância da espiritualidade, para além das religiões, é o que, de certa forma, nos conecta ao sagrado.

Pode parecer estranho para o cristão esse conceito, mas a nossa fé também desenvolve a ancestralidade. Quando falamos do Deus de Abraão, Isaque e Jacó, não chamamos uma ancestralidade de sangue, de fato não a temos, mas o cristianismo propõe eles são nossos patriarcas de fé, assim como os profetas, apóstolos e assim por diante.

Jesus é o meu Deus, e o Deus dos meus antepassados. Mas também tenho antepassados que são deuses em outros lugares e outras pessoas.

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