Como cheguei a essa linda igreja chamada Luterana



Para quem não sabe eu nasci em tradição evangélica, na Igreja Batista (isso mesmo, da Convenção Batista Brasileira, aqueles fofos). Com 17 anos eu tive um crise na vida muito louca, estava com depressão, desempregado, sem rumo na vida e sem entender um pingo da minha fé.

Fiquem tranquilos que isso passou pela misericórdia de Deus. Conheci o Calvinismo na Catedral Presbiteriana de São Paulo, e aquilo revitalizou, avivou, reformou a minha fé, mas continuei na igreja batista. Me tornei um novo ser humano, mais vivo, mais cheio do amor de Deus, mais atuante na igreja, cheio de planos e esperanças, só que eu não era mais batista e eu queria sair, pra viver minha fé do jeito que achava o melhor modo.

Eu creio que Deus queria que eu fizesse obras na igreja batista, coisas que fiz, que Deus me abençoou e a igreja a qual pertencia, mas esperei o momento que Deus me permitisse sair e congregar na igreja que Ele quisesse. Na minha cabeça juvenil tinha certeza que seria a Igreja Presbiteriana. Eu amava a teologia calvinista, a liturgia, o jeito de ser presbiteriano e tudo que ali tinha, mas Deus sabe mais das coisas do que eu.

A doutrina calvinista é ótima, mas parecia que me faltava algo, que eu não sabia o que era, pois o calvinismo é muito certinho, perfeitamente explicado, coerente, exato; acho que o problema era esse, ser muito racional com as coisas da fé, as coisas que são do domínio de Deus, sempre me pareceu estranho. Exemplo? A doutrina mais famosa do calvinismo é a predestinação, o que é algo bíblico, feito por Deus, e os calvinistas ficam explicando, explicando, explicando, explicando... E nunca acaba esse debate. Porque não é fácil entender, porque Deus quer que simplesmente acreditemos nas coisas que cabe a Ele fazer e que meditemos, trabalhemos e comunguemos, nas coisas que nos cabe fazer, a saber: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. Essa simplicidade eu já buscava viver, mas sem muito sucesso.

Na bela e maravilhosa ultima sexta-feira de Outubro de 2015 eu tive uma paralisia facial, por trabalhar, estudar, fazer CFC, cuidar de 5 atividades na igreja e ser infeliz com coisas da vida, tudo o mesmo tempo. Deus fez igual o João Kleber: "PARA, PARA, PARA TUDO! Voltamos depois dos comerciais!" (Deus me perdoe se isso é blasfêmia).



Minha vida literalmente parou, tudo o que eu fazia teve que dar um tempo para meu rosto voltar a ser o que era. Fiz tratamentos psicológicos para controlar o estresse e reorganizar minha vida. Reorganizar significava que eu ia faltar na igreja no dia 22 de Novembro, que eu sem saber era o Domingo da Eternidade - Cristo Rei. Como eu sempre fui curioso com as diversas tradições cristãs e arquitetura sacra, fui visitar a igreja Martim Luther, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.

Naquela manhã tomei vários choques. Primeiro que entrei na igreja e tinha um crucifixo (do tamanho do mundo) no altar, eu não era acostumado com imagens na igreja evangélica, mesmo que soubesse que em outros lugares do mundo é mais comum até na igreja batista. As pessoas vieram me cumprimentar, inclusive o pastor, foram muito amáveis comigo naquele período antes do culto se iniciar. Quando o culto se iniciou o pastor entrou na igreja da porta em direção ao altar, ele vestia alba e estola, quando não usa o talar (uma toga preta).


Nunca nessa vida tinha imaginado um pastor com roupas litúrgicas, mas até achei bonito. Mas o que me chocou mesmo foi a mensagem.

Esse tal domingo da Eternidade - Cristo Rei, é o último domingo do calendário da Igreja, depois disso começa o Advento, com os preparativos para o Natal que é o Ano Novo da Igreja. Nesse domingo se fala de duas coisas: Eternidade, sobre aqueles que já morreram e dormem em Cristo aguardando a ressurreição, oramos pelas famílias enlutadas e Cristo Rei, falamos sobre o domínio e poder de Cristo sobre todo o Universo, que ele é poderoso para ressuscitar nossos irmãos no dia final e que Ele tem o controle do tudo na nossa vida.

Foi ai que eu comecei a me aproximar da igreja luterana. Quando participei da Ceia a primeira vez, ainda sem ser membro, corri para o Catecismo para ver o porque daquela minha alegria e felicidade, encontrei isso:
“Dado e derramado em favor de vocês, para remissão dos pecados. Por estas palavras nos são dados, no sacramento, perdão dos pecados, vida e salvação. Pois onde há perdão dos pecados, também há vida e salvação.”

E foi assim que me tornei luterano, Deus me deu um momento de descanso, onde eu podia sentar no culto e ouvir a Palavra, onde eu recebia perdão e justificação a cada momento, inclusive na Ceia. Hoje vejo que isso era necessário para manter minha fé, para que eu seja um cristão melhor. Para que eu tenha mais liberdade do legalismo e que seja mais escravo do amor.

Ainda esperei até Março, tempo de Quaresma, para sair da minha antiga igreja, sai relativamente em paz, não tive brigas, rixas ou coisas assim, ainda visito com frequência, claro que tem uns que me olham estranho, mas eu lhes abraço, pois ainda acredito que abraços podem cobrir coisas ruim com amor.

Autor: Arthur Rocha
Imagens da internet.

Comentários

  1. Interessante seu artigo, a minha experiência eclesiástica foi mais ou menos assim: nasci e fui criado numa família da Assembleia de Deus, igreja na qual recebi o sacramento do batismo em 2006. No entanto, logo em seguida, tive uma experiência semelhante à de Lutero: um terror espiritual. Eu achava que tudo era pecado, e tinha medo de perder a salvação por maus atos. Depois de um ano de dificuldades, acabei por conhecer a "sola fide" em toda a sua beleza. Atualmente sou calvinista, ou quase isso...Sai da AD por um tempo, frequentei a Presbiteriana Independente e a paróquia luterana(IECLB) de minha cidade. Acabei voltando pra AD, mas tenho uma série de ideias estranhas a esta denominação, como a predestinação, perseverança dos santos, e batismo infantil, o gosto por uma liturgia mais elaborada, a forma episcopal de governo da igreja. Sei lá, acho que é o meu lugar, e tento lutar para torná-lo melhor. No entanto, isso não significa que eu tenho certeza total que vou ficar por lá. Vamos ver como Deus vai conduzir as coisas.

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